Todas
as quedas são livres, de Leandro Rodrigues: viagem entre extremos
Leandro Rodrigues nasceu em
Osasco, São Paulo. Integrando diversas antologias e com poemas publicados em
revistas especializadas, é autor de Aprendizagem
cinza (2016) e de Faz sol mas eu
grito (2018). Traz-nos, agora, seu terceiro livro, Todas as quedas são livres. Acompanho seu trabalho há tempos e,
desde logo, admito que sua voz poética sempre me impressionou. É o mesmo
sentimento que este novo livro provoca.
Após o título, a epígrafe, belo
poema de Yukio Mishima, adianta que não se está somente diante de um elogio ao
que rui e decai, mas, ao longo da leitura, virá a percepção de que “a ânsia de subir” e o pertencimento ao
céu serão contraposições à primeira ideia. Se há a escavação do que se sente em
queda, ainda subsistirá a ciência de que há a opção do céu e de um voo
planejado. Em “Ícaro”, primeiro dos poemas, exatamente porque “a alada simetria da chama / resiste ao vento”,
a queda oferecerá, como alternativa cabível, caminho inverso ao da gravidade. O
eu-lírico conhece suas asas (“se me perco
na viagem / tenho asa”).
Os poemas revelam que vocábulos
ascensionais (voo, pássaro, asa, azul, sol, céu, vento, lua) são tão presentes
quanto os cadentes (queda, escombros, tédio, precipício, solo, medo, sombra,
morte), enquanto, no entreato, um parapeito ou uma teia sobressaem como amparo.
A palavra azul traduz o céu, identificando o infinito, a translucidez, a
eternidade. A palavra noite designa mistério, o medo, o inconsciente. Lua
simboliza os movimentos da vida, que o Sol ilumina. O tempo mescla o voo ao
tédio.
Nada, aqui, é gratuito.
“A flor-amálgama cresce” sobre os opostos. Nos títulos que
distinguem cada um dos capítulos do livro, vê-se que, entre “o abismo da água” e “o voo rasante da lua”, interpõem-se, sob
a vigilância de Ícaro, “o chão de pedras
meninas”, “a teia como rede de
proteção”, “ponteiros como estacas”
e “germinações do desacorde”.
No intervalo extremo do que
chega ao fundo e do que toca o cimo, são exploradas então questões existenciais
e sociais, que nos trarão o delicioso assombro da identificação e o prazer da
leitura de boa poesia. Leandro examina a dualidade que nos habita. Os tropeços e,
de outro lado, aviões e pássaros que atravessam o azul (“pássaro em sincronia / com a queda”). A alusão a “um salto para o infinito” prova que o
precipício não é irreversível. Embora a liquidez da vida moderna e as
inseguranças, coloquem-se como premissas, há artefatos de resgate. E “um deus alado” é o seu receptor.
Leandro ainda registra que “as farpas são asas / a queda um único /
verso // sem rede de proteção”. Sim, nunca há, para todos nós, rede que nos
garanta um próximo momento. É necessário atravessar arames – imagem que,
recorrente na obra, ressignifica as tantas e dissimuladas amarras da vida
contemporânea (“num arame estendido azul
/ uma tarde por um lance”). Nos dias que seguem, multiplicadas a violência
e a polarização, “o público aguarda a
queda em silêncio”. Paradoxos nos enfrentam no que é perda e no que é
deleite:
A MENINA, O CAMINHO, A PEDRA E O RIO
É sempre mais difícil ancorar um navio no espaço
Ana Cristina
César
A menina olha o rio
É mais bela que a tarde
A pedra olha o rio
Há um caminho dentro dela
-
O rito de
passagem -
O rio se
encanta A tarde se encanta
A menina
disfarça
Apanha a
pedra Atira-a no leito
-
3 leves
golpes de encanto –
O rio sorri
A tarde sorri
A pedra afunda.
Sim,
as ambiguidades são variáveis das quais não se pode escapar. Batem-se o que
cega e o que é prazer, o medo e a libertação, “entre os olhos e o infinito”. A poesia de Leandro Rodrigues traz
beleza à equação. A profusão imagética encanta à primeira vista, sem que se
percam a surpresa e o estranhamento.
Também
o tempo, a vida e a morte provocam o poeta: Chronos, Kairós, Tânatos despertos.
No entanto, as possibilidades sempre serão oferendas. As pedras que se colocam
na escalada do inferno ao paraíso são transformadas em palavras, sons, gratas imagens:
Às oito
horas e vinte de uma manhã sem dentes
O homem
velho se debruça da sacada
Acorrenta-se
ao sol
Agarra-se
no azul
E
desfia as nuvens como novelos
(a
barba branca de Deus)
A
poesia é luta contra a morte. Assim, os versos de Alexandre O’Neill (“Ao silêncio dos amantes / Abraçados contra a
morte”), assim os versos de Leandro Rodrigues (“A morte / um corte // Na vida / Antes na poesia”). Os poetas
retratam instantes e, como nas fotografias, congelam aqueles registros e os deixam
à eternidade. A compreensão humana não alcança a finitude e Leandro questiona:
“em que instante morremos a paisagem?”
Nada é absoluto. Conquanto busquemo-nos nos espelhos, a incerteza que brota
daquela questão permanece e nos estimula à vida:
Pôs um
espelho no chão
E agora
admira as estrelas
de perto.
A escrita de Leandro Rodrigues é
distinta e manobra o idioma para construir novas formas, redimensionar a
tradição em experimentos variados: “quando um poeta encontra sua palavra, logo
a reconhece”, afirma Octavio Paz. Em Todas
as quedas são livres, poemas mais extensos estão muito bem combinados com
outros minimalistas, pausas enfáticas, precisas e comoventes:
Navio
abandonado
O mar o
desfaz
Por seu
medo
Ou ainda:
sono ancestral do mundo
no quarto crescente
abarrotadas fotografias
adormecem
O domínio da estética se afirma. E não apenas pelo manejo das
palavras. Também pela sua dispersão elegante sobre o papel, pela certeza dos
cortes. As escolhas não derivam do acaso ou da precipitação. Ressai de cada poema a garantia de um resultado longa e
previamente pensado:
Silêncio
os olhos mudos
guardada a voz
o espanto do nada
pirâmides de sal
chão de pequenas
cicatrizes
que se calam
o grito
a voz afogada
na escuridão
botas resvalam
no assoalho
silêncio em tudo
Nocturne Opus 9
Chopin
Leandro Rodrigues sabe o seu ofício. Em seus poemas,
inscrevem-se as crises modernas, o desconforto cultural, e se evoca a
denunciação. O poeta cruza, entre o céu e o Hades, “o grande deserto dos
homens” a que se referia Baudelaire. Na queda, encontra a liberdade, o “voo, a asa / aberta na carne, no osso, na
palavra”. Tatua pássaros em pescoços
e recomenda um olhar delicado para formigas que parecem dizer algo. “Todas as questões são livres” em sua poética.
Seus versos falam de sacrifício, mas facultam escolhas, desvelam a poesia – dispositivo
precioso de salvação.
Alberto Bresciani
fevereiro de 2020

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