segunda-feira, 7 de abril de 2025

Todas As Quedas São Livres (Penalux, 2020) de Leandro Rodrigues





              Todas As Quedas São Livres (Penalux, 2020) é o terceiro livro de poesia de
              Leandro Rodrigues, poeta nascido e radicado em Osasco-SP.
              Numa vertiginosa fragmentação poética fundem-se haicais, poemas concretos,
              sonetos, versos livres em ode aos equilibristas que desafiam numa corda bamba
              o tempo e a existência.

           




            Texto da orelha:


           Se todas as quedas são livres, então todos os voos são livres.
           O céu que é de Ícaro e de Galileu é também de Philippe Petit,
           de Lillian Leitzel, de Maria Spelterini, dos Wallenda, de Charles Blondin...        
           Na corda bamba do tempo, no tênue fio da (in)existência des)equilibram-se
           as palavras, os versos, uns corpos desmedidos que se apoiam verticais no azul
           entre as teias da aranha e os girassóis mudos.        
           Por um lance, o passo em falso – o fato: a corda pendente do cadafalso pronto.
           No chão um pássaro sem asas observa tudo e tece seu canto, sua elegia fatídica
           e dissonante.


                                        no (des) equilibrio o voo
                                        do pássaro vertical
                                        azul (des) medido

                                        o canto das águas
                                        premonitórias

                                        memórias das folhas secas
                                        nas trincas do concreto

                                        o sangue – a seiva.


                                                                              Leandro Rodrigues








terça-feira, 16 de abril de 2024

Posfácio do poeta Alberto Bresciani em Todas As Quedas São Livres de Leandro Rodrigues (Penalux, 2020)



                         



Todas as quedas são livres, de Leandro Rodrigues: viagem entre extremos

Leandro Rodrigues nasceu em Osasco, São Paulo. Integrando diversas antologias e com poemas publicados em revistas especializadas, é autor de Aprendizagem cinza (2016) e de Faz sol mas eu grito (2018). Traz-nos, agora, seu terceiro livro, Todas as quedas são livres. Acompanho seu trabalho há tempos e, desde logo, admito que sua voz poética sempre me impressionou. É o mesmo sentimento que este novo livro provoca.
Após o título, a epígrafe, belo poema de Yukio Mishima, adianta que não se está somente diante de um elogio ao que rui e decai, mas, ao longo da leitura, virá a percepção de que “a ânsia de subir” e o pertencimento ao céu serão contraposições à primeira ideia. Se há a escavação do que se sente em queda, ainda subsistirá a ciência de que há a opção do céu e de um voo planejado. Em “Ícaro”, primeiro dos poemas, exatamente porque “a alada simetria da chama / resiste ao vento”, a queda oferecerá, como alternativa cabível, caminho inverso ao da gravidade. O eu-lírico conhece suas asas (“se me perco na viagem / tenho asa”).
Os poemas revelam que vocábulos ascensionais (voo, pássaro, asa, azul, sol, céu, vento, lua) são tão presentes quanto os cadentes (queda, escombros, tédio, precipício, solo, medo, sombra, morte), enquanto, no entreato, um parapeito ou uma teia sobressaem como amparo. A palavra azul traduz o céu, identificando o infinito, a translucidez, a eternidade. A palavra noite designa mistério, o medo, o inconsciente. Lua simboliza os movimentos da vida, que o Sol ilumina. O tempo mescla o voo ao tédio.
Nada, aqui, é gratuito.
A flor-amálgama cresce” sobre os opostos. Nos títulos que distinguem cada um dos capítulos do livro, vê-se que, entre “o abismo da água” e “o voo rasante da lua”, interpõem-se, sob a vigilância de Ícaro, “o chão de pedras meninas”, “a teia como rede de proteção”, “ponteiros como estacas” e “germinações do desacorde”. 
No intervalo extremo do que chega ao fundo e do que toca o cimo, são exploradas então questões existenciais e sociais, que nos trarão o delicioso assombro da identificação e o prazer da leitura de boa poesia. Leandro examina a dualidade que nos habita. Os tropeços e, de outro lado, aviões e pássaros que atravessam o azul (“pássaro em sincronia / com a queda”). A alusão a “um salto para o infinito” prova que o precipício não é irreversível. Embora a liquidez da vida moderna e as inseguranças, coloquem-se como premissas, há artefatos de resgate. E “um deus alado” é o seu receptor.
Leandro ainda registra que “as farpas são asas / a queda um único / verso // sem rede de proteção”. Sim, nunca há, para todos nós, rede que nos garanta um próximo momento. É necessário atravessar arames – imagem que, recorrente na obra, ressignifica as tantas e dissimuladas amarras da vida contemporânea (“num arame estendido azul / uma tarde por um lance”). Nos dias que seguem, multiplicadas a violência e a polarização, “o público aguarda a queda em silêncio”. Paradoxos nos enfrentam no que é perda e no que é deleite:

A MENINA, O CAMINHO, A PEDRA E O RIO

É sempre mais difícil ancorar um navio no espaço
Ana Cristina César


A menina olha o rio
É mais bela que a tarde

A pedra olha o rio
Há um caminho dentro dela
-      O rito de passagem -

O rio se encanta A tarde se encanta

A menina disfarça
Apanha a pedra Atira-a no leito
-      3 leves golpes de encanto


O rio sorri A tarde sorri


A pedra afunda.


            Sim, as ambiguidades são variáveis das quais não se pode escapar. Batem-se o que cega e o que é prazer, o medo e a libertação, “entre os olhos e o infinito”. A poesia de Leandro Rodrigues traz beleza à equação. A profusão imagética encanta à primeira vista, sem que se percam a surpresa e o estranhamento.
            Também o tempo, a vida e a morte provocam o poeta: Chronos, Kairós, Tânatos despertos. No entanto, as possibilidades sempre serão oferendas. As pedras que se colocam na escalada do inferno ao paraíso são transformadas em palavras, sons, gratas imagens:

Às oito horas e vinte de uma manhã sem dentes
O homem velho se debruça da sacada
Acorrenta-se ao sol
Agarra-se no azul

E desfia as nuvens como novelos


(a barba branca de Deus)

            A poesia é luta contra a morte. Assim, os versos de Alexandre O’Neill (“Ao silêncio dos amantes / Abraçados contra a morte”), assim os versos de Leandro Rodrigues (“A morte / um corte // Na vida / Antes na poesia”). Os poetas retratam instantes e, como nas fotografias, congelam aqueles registros e os deixam à eternidade. A compreensão humana não alcança a finitude e Leandro questiona: “em que instante morremos a paisagem?” Nada é absoluto. Conquanto busquemo-nos nos espelhos, a incerteza que brota daquela questão permanece e nos estimula à vida:

Pôs um espelho no chão
E agora admira as estrelas
                         de perto.

A escrita de Leandro Rodrigues é distinta e manobra o idioma para construir novas formas, redimensionar a tradição em experimentos variados: “quando um poeta encontra sua palavra, logo a reconhece”, afirma Octavio Paz. Em Todas as quedas são livres, poemas mais extensos estão muito bem combinados com outros minimalistas, pausas enfáticas, precisas e comoventes:

Navio abandonado

O mar o desfaz
Por seu medo

Ou ainda:

sono ancestral do mundo

    no quarto crescente
    abarrotadas fotografias adormecem


O domínio da estética se afirma. E não apenas pelo manejo das palavras. Também pela sua dispersão elegante sobre o papel, pela certeza dos cortes. As escolhas não derivam do acaso ou da precipitação. Ressai de cada poema a garantia de um resultado longa e previamente pensado:

Silêncio

os olhos mudos
guardada a voz
o espanto do nada

pirâmides de sal
chão de pequenas
         cicatrizes
que se calam
         o grito
a voz afogada
         na escuridão
botas resvalam
        no assoalho

silêncio em tudo
Nocturne Opus 9
       Chopin

Leandro Rodrigues sabe o seu ofício. Em seus poemas, inscrevem-se as crises modernas, o desconforto cultural, e se evoca a denunciação. O poeta cruza, entre o céu e o Hades, “o grande deserto dos homens” a que se referia Baudelaire. Na queda, encontra a liberdade, o “voo, a asa / aberta na carne, no osso, na palavra”. Tatua pássaros em pescoços  e recomenda um olhar delicado para formigas que parecem dizer algo. “Todas as questões são livres” em sua poética. Seus versos falam de sacrifício, mas facultam escolhas, desvelam a poesia – dispositivo precioso de salvação. 


Alberto Bresciani
fevereiro de 2020  








sábado, 23 de maio de 2020

ENTREVISTA A FERNANDO ANDRADE


Assim é o poeta: um Ícaro que ousa aproximar-se do Sol, mesmo sabendo que a queda é o desfecho natural. Leandro Rodrigues

ENTREVISTA

FERNANDO ANDRADE: Poderíamos dizer que o espaço da página de um livro é uma queda? Onde os sentidos estão descendo do seu autor ao processo de captura de um leitor? Aqui claro envolvendo desejo, conquista, identificação?
LEANDRO RODRIGUES: Perfeita definição. A página é mesmo uma queda. No Todas As Quedas São Livres (Penalux, 2020) utilizei-me desse recurso em alguns poemas, com as palavras despencando, partes delas (sílabas, letras) caem de forma estranha e vertiginosa pela página. Outros aproximam-se de uma fragmentação de conceitos, numa mistura de poemas, que vai do soneto, passa pelo terceto ou haicai e outros mais experimentais e livres. Costumo dizer, fazendo alusão ao Tropicalismo de Caetano, Gil, Torquato… que de todas as formas poéticas, eu prefiro todas. E a relação com a queda passa também por esse ponto emblemático que você bem citou: a poesia como desequilíbrio de um árduo fazer que envolve um trabalho insano de busca, pesquisa, um rasgar de veias para pouquíssimos leitores e quase nenhuma divulgação ou repercussão. É o inseto no Áporo de Drummond, cavando, cavando em país bloqueado, exaustos na noite sem fim, num labirinto sem saída. Mas segue cavando. Assim é o poeta: um Ícaro que ousa aproximar-se do Sol, mesmo sabendo que a queda é o desfecho natural.

FERNANDO ANDRADE – O céu sempre foi visto como uma zona de imaginação, as nuvens parecem possuir muitas imagens com relação a este espaço até de criação artística. Como você processou esta ideia da poesia junto aos céus, sendo que este também já foi processo de uma metafísica religiosa?
LEANDRO RODRIGUES: Alguns poemas nasceram após eu tomar contato com a história do equilibrista francês Philippe Petit e sua inacreditável travessia das torres gêmeas em NY, 1974. Assisti depois ao filme e a um documentário sobre o feito. Pesquisei sobre diversos outros equilibristas e descobri a importante figura de uma mulher italiana de nome Maria Spelterini que era a única mulher a atravessar o desfiladeiro de Niagara em uma corda bamba, o que fez em 8 de julho de 1876, achei formidável. Assim como Lillian Leitzel, outra importante equilibrista circense, que morreu ao despencar da corda bamba numa apresentação em 1931 em Copenhague na Dinamarca. Lembrava-me também vagamente de Karl Wallenda, um equilibrista americano famoso que perdeu a vida numa queda em meio à travessia em corda bamba entre prédios em Porto Rico, 1978. Sua queda e seu desequilíbrio por conta dos fortes ventos foi filmada e passou na tevê. Outro equilibrista fascinante, esse não da corda bamba, mas de ficar pendurado em altos edifícios, às vezes de cabeça para baixo tomando chá com biscoito para propagandas de lojas de departamentos, é o americano Alvin “Shipwreck” Kelly: há fotos sensacionais de seus feitos nos anos 30. Enfim faço dedicatórias de alguns poemas de O Arco do Desequilíbrio para esses homens e mulheres pássaros, Ícaros da vida real. Talvez tudo se junte não num pensamento religioso, mas na simbologia mítica do voo e da queda. Um dos meus poemas preferidos é o Ícaro do poeta japonês Yukio Mishima traduzido pelo nosso Leminski.
Ao mesmo tempo fui compondo e imaginando diferentes imagens de voos e quedas. Um exemplo é o A Menina, o caminho, a pedra e o rio que já havia sido publicado em Portugal, ali a menina atira uma pedra num rio e toda a graça da menina se junta á tarde, ao caminho, ao ritual de passagem e a pedra afunda. Outro um relógio antigo com seus ponteiros parados pela morte de alguém na casa. Os ponteiros são a corda estendida. O fio tênue da existência e da inexistência. O mesmo ocorre em poemas que falam sobre as teias de aranha, o abismo do mar, os acordes do instrumento ou a
germinação de tudo.
Fui aos poucos juntando o quebra-cabeça e o livro foi se formando. A questão não é tanto o voo, mas o equilíbrio na corda bamba. A queda por um fio.
Pedi ao querido poeta Alberto Bresciani para que fizesse um texto sobre o livro e ele fez de forma belíssima e generosa. Uma obra-prima de um poeta do mais alto nível e que fecha o livro da melhor forma.

FERNANDO ANDRADE: O espaço tanto dado à palavra, como dos sentidos, parecem que se dilatam pela movimentação? Da estética do poema na página. Que tipos de efeitos você quis dar para este balé onde os poemas se movimentam ao percurso até da leitura?
LEANDRO RODRIGUES: É o ponto de desequilíbrio em que as palavras estão em constante movimento e a queda está por um fio. É o ato poético. A busca incessante pela travessia. A vida – A morte. Tudo por um fio. A teia de aranha fina, tênue, mas precisa. A experimentação das palavras dispostas na forma de uma teia em que a existência e a inexistência se enroscam – tecem e são tecidas. Os frios ponteiros do relógio que demarcam existências, a menina bela e seu rito de passagem pela tarde, o homem velho que dobra a esquina com seu passo lento, Isadora Duncan dançando entre as sombras do tempo, Leila Diniz em sua liberdade para além de Espanhas e Holandas, Violeta Parra e seu canto dissonante, estranho e lindo.
Quis muito que esse livro tivesse um outro viés. Nos meus dois livros anteriores publicados a questão da crítica social é latente. Nesse também tem um pouco principalmente no poema Natal no Morro:

de sobressalto
a mãe olha para o filho
– são fogos de artifício!
meninos sonham acordados castelos, dragões, bolas, cometas

e um país imaginário
sem balas perdidas.

E fiz questão de que esse poema estivesse no livro, justamente por conta da representação que ele causa, ou seja, a vida por um fio, a opressão social como causadora do drama, do desequilíbrio que passamos.
Em Aprendizagem Cinza (2016) e Faz Sol Mas Eu Grito (2018) há toda uma preocupação social que permeia do início ao fim. Já em Todas As Quedas São Livres há uma certa leveza, um exercício de fazeres poéticos. A liberdade do equilíbrio, do desequilíbrio e da queda. Há um certo tom oriental de Bashô, Nempuku Sato, Helena Kolody e até Quintana.

FERNANDO ANDRADE: O conhecimento já pegou fogo em vários livros como O nome da Rosa. Ícaro sonhou voar perto do sol para sentir o frêmito de uma liberdade criativa. Mas suas asas foram derretidas pelo sol. Estas imagens do calor, do sol, do fogo parecem bem interessantes quando próximas do ato de ler ou fazer literatura?
LEANDRO RODRIGUES: O fogo simboliza a vida, o conhecimento intuitivo, a iluminação, a paixão, mas também simboliza a destruição. A efemeridade de tudo é o ponto central a que deveríamos prestar mais atenção. Ícaro foi ousado. Não acho que a queda foi uma punição. Como no Eclesiastes em que “não há novo sob o sol”, tudo já foi dito e desdito, escrito e reescrito, feito e desfeito etc. E, no entanto, fazemos novamente e desfazemos. TÉ só o que nos resta: atravessar de um lado ao outro numa corda bamba com um vento incessante. Aproximamos do sol, sabemos que a queda é inevitável. E caímos. A poesia assemelha-se muito a isso tudo. Num poema do Todas as Quedas… chamado Música digo que as cordas velhas do instrumento são retiradas e estendidas de um lado ao outro como um varal, então o vento que bate nela é que traz a música. Ou seja, tudo existe e sempre existiu independente de nós. Estamos, podemos agir, transformar, voar, mas a queda, no mais amplo sentido, sempre vem, com ou sem rede de proteção. O livro é uma ode ao desequilíbrio e à queda que é mais forte que nós.

FERNANDO ANDRADE: Cite dois poetas que você dialoga quando monta um livro novo. E por quê?
LEANDRO RODRIGUES: Aí é que está. Sou uma espécie de ermitão com relação a grupos poéticos ou contatos com outros poetas. Isso não quer dizer que eu não leia e acompanhe alguns ótimos autores como: Rosana PiccoloRubens JardimAlberto BrescianiRoberta Tostes DanielTarso de Melo, André Merez entre outros (desculpe alguns que devo ter esquecido). Às vezes arrisco um ou outro contato, mas não lembro de ter mencionado ou conversado algo sobre um livro novo que eu estava fazendo. A não ser com aqueles que me presentearam com prefácios ou posfácios.
O fato é que o fazer poético é algo totalmente solitário em mim. Sou mesmo avesso a Saraus ou lançamentos de livros. Participei de poucos até agora. Prefiro ficar quieto no meu canto. Já implorei por leituras de poetas “consagrados”, não faço mais. No Todas As Quedas… a Penalux, através de seus editores Wilson Gorj e Tonho França, foi fundamental por ter abraçado a ideia e feito uma edição extremamente caprichada do mesmo. Sinto que lançar livro de poesia no Brasil é algo tão ousado e difícil quanto se equilibrar na corda bamba entre dois fantasmagóricos arranha-céus.



quarta-feira, 29 de abril de 2020

O HOMEM VELHO




















O Homem Velho Sentado de Ferdinand Hodler





O homem velho                                                    
        dobra a estrada                                      
olha        tudo                                                     
vê        o          nada                                


O homem velho                                                   
declina-se do vento
      - sempre                                                         
                 à margem -
da eternidade – passa                                    


Às oito horas e vinte de uma manhã sem dentes
O homem velho se debruça da sacada
Acorrenta-se ao sol
Agarra-se no azul

E desfia as nuvens como novelos



(a barba branca de Deus)