quarta-feira, 29 de abril de 2020

O HOMEM VELHO




















O Homem Velho Sentado de Ferdinand Hodler





O homem velho                                                    
        dobra a estrada                                      
olha        tudo                                                     
vê        o          nada                                


O homem velho                                                   
declina-se do vento
      - sempre                                                         
                 à margem -
da eternidade – passa                                    


Às oito horas e vinte de uma manhã sem dentes
O homem velho se debruça da sacada
Acorrenta-se ao sol
Agarra-se no azul

E desfia as nuvens como novelos



(a barba branca de Deus)






sábado, 25 de abril de 2020

AVISO


                                                 



















Paul Klee - O Equilibrista





A  VISO
VISÍVEL
VISO A
IN
VISÍVEL
A      VI
SO  SO
A VISO
VISÍVEL
VISO A
IN
VISÍVEL
A      VI





sexta-feira, 24 de abril de 2020








































                                    A TEIA





aranha






te   cen   do    te

cen  do  te     cen

do    te   cen do

te   cen   do    te

cen  do  te     cen

do    te   cen do

te   cen   do    te

cen  do  te     cen

do    te   cen do




                                                                                           a teia






segunda-feira, 20 de abril de 2020

ÍCARO


























A Ícaro seu voo
rente ao sol    asas de cera
a queda brusca e inevitável
ruflada sombra ao precipício

A Ícaro a palavra
no tempo de vela derretida
as penas descoladas
a alada simetria da chama
                    resiste ao vento

A Ícaro o canto do pássaro
o vértice do outro limite

                 o solo de nuvem
                      o solo de nuvem

                 do instante
                         de todo instante


Leandro Rodrigues

Pintura óleo sobre tela de Peter Paul Rubens - A Queda de Ícaro, 1636


ÍCARO


                                         



















Com o que então pertenço aos céus? 
Não fosse assim, por que é que os céus 
Me olhariam assim com o seu eterno olhar azul, 
Me chamando, e à minha mente, mais alto, 
Sempre mais alto, sempre mais para cima, 
Me chamando sempre para o máximo, 
Para alturas que homem algum imagina? 
Por que, estudado o equilíbrio 
E o voo planejado até a última minúcia, 
Até não haver margem para o infortúnio, 
Por que, até aí, deve a ânsia de subir 
Ser associada à insânia? 
Nada nesta terra vai me ver satisfeito; 
Novidades do mundo, logo monótonas; 
Algo me chama lá em cima, para cima, 
Cada vez mais perto da faísca do sol. 
Por que me queimam estes raios da razão? 
Por que me destroem estes raios? 
Vilarejos lá embaixo e meandros de rios 
Até que são bonitos vistos desta distância. 
Por que me imploram, me aprovam, me invocam 
Que eu ame o que existe lá embaixo 
Se vissem o que, daqui de cima, vejo - 
Embora o fim nunca pudesse ser o amor; 
E, se fosse, poderia algum dia 
Pertencer aos céus? 
Nunca invejei a liberdade do pássaro, 
Nem nunca desejei a paz da natureza, 
Possesso apenas desta estranha fúria 
De ir sempre para cima, de mergulhar 
Nas profundezas do céu azul, tão inimigo 
A toda alegria fácil, tão distante 
Dos prazeres da fácil fortuna, 
Mas sempre algo, mais alto e mais, 
Perplexo, talvez, pelas esperanças 
Destas asas de cera. 



Yukio Mishima
de: Sol e Aço, 1985 (trad.: Paulo Leminski)

Pintura óleo sobre tela de Carlos Saraceni - A Queda de Ícaro, 1600.