terça-feira, 16 de abril de 2024

Posfácio do poeta Alberto Bresciani em Todas As Quedas São Livres de Leandro Rodrigues (Penalux, 2020)



                         



Todas as quedas são livres, de Leandro Rodrigues: viagem entre extremos

Leandro Rodrigues nasceu em Osasco, São Paulo. Integrando diversas antologias e com poemas publicados em revistas especializadas, é autor de Aprendizagem cinza (2016) e de Faz sol mas eu grito (2018). Traz-nos, agora, seu terceiro livro, Todas as quedas são livres. Acompanho seu trabalho há tempos e, desde logo, admito que sua voz poética sempre me impressionou. É o mesmo sentimento que este novo livro provoca.
Após o título, a epígrafe, belo poema de Yukio Mishima, adianta que não se está somente diante de um elogio ao que rui e decai, mas, ao longo da leitura, virá a percepção de que “a ânsia de subir” e o pertencimento ao céu serão contraposições à primeira ideia. Se há a escavação do que se sente em queda, ainda subsistirá a ciência de que há a opção do céu e de um voo planejado. Em “Ícaro”, primeiro dos poemas, exatamente porque “a alada simetria da chama / resiste ao vento”, a queda oferecerá, como alternativa cabível, caminho inverso ao da gravidade. O eu-lírico conhece suas asas (“se me perco na viagem / tenho asa”).
Os poemas revelam que vocábulos ascensionais (voo, pássaro, asa, azul, sol, céu, vento, lua) são tão presentes quanto os cadentes (queda, escombros, tédio, precipício, solo, medo, sombra, morte), enquanto, no entreato, um parapeito ou uma teia sobressaem como amparo. A palavra azul traduz o céu, identificando o infinito, a translucidez, a eternidade. A palavra noite designa mistério, o medo, o inconsciente. Lua simboliza os movimentos da vida, que o Sol ilumina. O tempo mescla o voo ao tédio.
Nada, aqui, é gratuito.
A flor-amálgama cresce” sobre os opostos. Nos títulos que distinguem cada um dos capítulos do livro, vê-se que, entre “o abismo da água” e “o voo rasante da lua”, interpõem-se, sob a vigilância de Ícaro, “o chão de pedras meninas”, “a teia como rede de proteção”, “ponteiros como estacas” e “germinações do desacorde”. 
No intervalo extremo do que chega ao fundo e do que toca o cimo, são exploradas então questões existenciais e sociais, que nos trarão o delicioso assombro da identificação e o prazer da leitura de boa poesia. Leandro examina a dualidade que nos habita. Os tropeços e, de outro lado, aviões e pássaros que atravessam o azul (“pássaro em sincronia / com a queda”). A alusão a “um salto para o infinito” prova que o precipício não é irreversível. Embora a liquidez da vida moderna e as inseguranças, coloquem-se como premissas, há artefatos de resgate. E “um deus alado” é o seu receptor.
Leandro ainda registra que “as farpas são asas / a queda um único / verso // sem rede de proteção”. Sim, nunca há, para todos nós, rede que nos garanta um próximo momento. É necessário atravessar arames – imagem que, recorrente na obra, ressignifica as tantas e dissimuladas amarras da vida contemporânea (“num arame estendido azul / uma tarde por um lance”). Nos dias que seguem, multiplicadas a violência e a polarização, “o público aguarda a queda em silêncio”. Paradoxos nos enfrentam no que é perda e no que é deleite:

A MENINA, O CAMINHO, A PEDRA E O RIO

É sempre mais difícil ancorar um navio no espaço
Ana Cristina César


A menina olha o rio
É mais bela que a tarde

A pedra olha o rio
Há um caminho dentro dela
-      O rito de passagem -

O rio se encanta A tarde se encanta

A menina disfarça
Apanha a pedra Atira-a no leito
-      3 leves golpes de encanto


O rio sorri A tarde sorri


A pedra afunda.


            Sim, as ambiguidades são variáveis das quais não se pode escapar. Batem-se o que cega e o que é prazer, o medo e a libertação, “entre os olhos e o infinito”. A poesia de Leandro Rodrigues traz beleza à equação. A profusão imagética encanta à primeira vista, sem que se percam a surpresa e o estranhamento.
            Também o tempo, a vida e a morte provocam o poeta: Chronos, Kairós, Tânatos despertos. No entanto, as possibilidades sempre serão oferendas. As pedras que se colocam na escalada do inferno ao paraíso são transformadas em palavras, sons, gratas imagens:

Às oito horas e vinte de uma manhã sem dentes
O homem velho se debruça da sacada
Acorrenta-se ao sol
Agarra-se no azul

E desfia as nuvens como novelos


(a barba branca de Deus)

            A poesia é luta contra a morte. Assim, os versos de Alexandre O’Neill (“Ao silêncio dos amantes / Abraçados contra a morte”), assim os versos de Leandro Rodrigues (“A morte / um corte // Na vida / Antes na poesia”). Os poetas retratam instantes e, como nas fotografias, congelam aqueles registros e os deixam à eternidade. A compreensão humana não alcança a finitude e Leandro questiona: “em que instante morremos a paisagem?” Nada é absoluto. Conquanto busquemo-nos nos espelhos, a incerteza que brota daquela questão permanece e nos estimula à vida:

Pôs um espelho no chão
E agora admira as estrelas
                         de perto.

A escrita de Leandro Rodrigues é distinta e manobra o idioma para construir novas formas, redimensionar a tradição em experimentos variados: “quando um poeta encontra sua palavra, logo a reconhece”, afirma Octavio Paz. Em Todas as quedas são livres, poemas mais extensos estão muito bem combinados com outros minimalistas, pausas enfáticas, precisas e comoventes:

Navio abandonado

O mar o desfaz
Por seu medo

Ou ainda:

sono ancestral do mundo

    no quarto crescente
    abarrotadas fotografias adormecem


O domínio da estética se afirma. E não apenas pelo manejo das palavras. Também pela sua dispersão elegante sobre o papel, pela certeza dos cortes. As escolhas não derivam do acaso ou da precipitação. Ressai de cada poema a garantia de um resultado longa e previamente pensado:

Silêncio

os olhos mudos
guardada a voz
o espanto do nada

pirâmides de sal
chão de pequenas
         cicatrizes
que se calam
         o grito
a voz afogada
         na escuridão
botas resvalam
        no assoalho

silêncio em tudo
Nocturne Opus 9
       Chopin

Leandro Rodrigues sabe o seu ofício. Em seus poemas, inscrevem-se as crises modernas, o desconforto cultural, e se evoca a denunciação. O poeta cruza, entre o céu e o Hades, “o grande deserto dos homens” a que se referia Baudelaire. Na queda, encontra a liberdade, o “voo, a asa / aberta na carne, no osso, na palavra”. Tatua pássaros em pescoços  e recomenda um olhar delicado para formigas que parecem dizer algo. “Todas as questões são livres” em sua poética. Seus versos falam de sacrifício, mas facultam escolhas, desvelam a poesia – dispositivo precioso de salvação. 


Alberto Bresciani
fevereiro de 2020