
Com o que então pertenço aos céus?
Não fosse assim, por que é que os céus
Me olhariam assim com o seu eterno olhar azul,
Me chamando, e à minha mente, mais alto,
Sempre mais alto, sempre mais para cima,
Me chamando sempre para o máximo,
Para alturas que homem algum imagina?
Por que, estudado o equilíbrio
E o voo planejado até a última minúcia,
Até não haver margem para o infortúnio,
Por que, até aí, deve a ânsia de subir
Ser associada à insânia?
Nada nesta terra vai me ver satisfeito;
Novidades do mundo, logo monótonas;
Algo me chama lá em cima, para cima,
Cada vez mais perto da faísca do sol.
Por que me queimam estes raios da razão?
Por que me destroem estes raios?
Vilarejos lá embaixo e meandros de rios
Até que são bonitos vistos desta distância.
Por que me imploram, me aprovam, me invocam
Que eu ame o que existe lá embaixo
Se vissem o que, daqui de cima, vejo -
Embora o fim nunca pudesse ser o amor;
E, se fosse, poderia algum dia
Pertencer aos céus?
Nunca invejei a liberdade do pássaro,
Nem nunca desejei a paz da natureza,
Possesso apenas desta estranha fúria
De ir sempre para cima, de mergulhar
Nas profundezas do céu azul, tão inimigo
A toda alegria fácil, tão distante
Dos prazeres da fácil fortuna,
Mas sempre algo, mais alto e mais,
Perplexo, talvez, pelas esperanças
Destas asas de cera.
Yukio Mishima
de: Sol e Aço, 1985 (trad.: Paulo Leminski)
Pintura óleo sobre tela de Carlos Saraceni - A Queda de Ícaro, 1600.
Pintura óleo sobre tela de Carlos Saraceni - A Queda de Ícaro, 1600.
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